sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Comentário sobre o infantil em Psicanálise – o enigma a partir da relação entre pais e criança.

A clínica psicanalítica com crianças é uma clínica complexa e muito rica, e dessa forma, suscita diversas questões e impasses. É uma clínica onde se faz necessário escutar a demanda dos pais, ou de quem leva uma criança à análise e escutar de forma singular a criança. Esta entendida como sujeito de seu próprio discurso. Uma das especificidades da psicanálise com crianças diz respeito ànecessidade de pensar a posição do analista, que se coloca na relação entre pais e criança, o que se dá entre o discurso e o desejo parental e que lugar a criança constrói para si a partir do que vem de seus pais.
De acordo com Zornig (2008):

(...) a singularidade da clínica psicanalítica com crianças se refere a sua posição em relação ao discurso e desejo parental, e não à imaturidade de seu aparelho psíquico, não há nenhuma justificativa para mudanças na teoria ou na técnica psicanalítica. Pelo contrário, por meio de nosso questionamento, gostaríamos de ressaltar a importância de se manter dentro de uma ética que respeite a criança em sua dimensão de sujeito responsável por seu discurso e pela possibilidade de dar um cunho singular e único a sua história, ainda que dentro do limite estrutural imposto pela própria infância. (ZORNIG, 2008, p.16)

No que diz respeito ao limite estrutural da própria infância podemos citar a dependência em relação ao adulto, discutida por Freud como a dimensão do desamparo. A dependência do adulto não se faz somente em relação ao cuidado material, como alimentação, oucuidados fisiológicos, por exemplo, mas faz-se necessária na dimensão subjetiva, isto é, é necessário haver outro para introduzir o bebê na cultura, na linguagem, para investir narcisicamente.
Outro ponto importante, diz respeito ao limite estrutural da linguagem da criança. A possibilidade desta é diferente da possibilidade de linguagem do adulto. A introdução do brincar na clínica com crianças possibilita o acesso ao universo da criança, permite que ela associe livremente. A associação livre, regra fundamental da psicanálise não pode ser abandonada nesta clínica. Afinal, a psicanálise com crianças não se baliza em outra teoria e técnica. 
A introdução do brincar, além de permitir que a criança associecom o uso de brinquedos há uma distância que permite à criança lidar com importantes questões, muitas vezes questões difíceis de serem abordadas, mesmo por crianças com maior capacidade de fala podem fazer uso de brincadeiras em momentos de intensa angústia. Melanie Klein nos apontou o valor simbólico das brincadeiras infantis e da fantasia, e Freud descreve o Fort-Da como o jogo que permite simbolizar uma falta. Através do brincar a criança pode ser senhora da situação, pode viver de forma ativa o que sofreu de forma passiva, pode repetir uma situação traumática e dessa forma, elaborá-la, e ainda, através da brincadeira, pode experimentar prazer através da repetição. No entanto, o brincar, essencial à clínica com crianças não tem como objetivo servir somente de material para interpretação, mas como possibilidade de fazer fluir a associação e dessa forma, construir um novo lugar.
Com os “Três Ensaios sobre a Teoria da sexualidade” (1905), Freud traz tona a dimensão sexual presente desde a infância e importantes contribuições à clínica, como por exemplo, ao propor que a criança possui uma sexualidade perverso-polimorfa, afirma a criança como sujeito e ainda, traz a dimensão dimpossibilidade de educar as pulsões. E com isso, uma indicação clínica importante. Não se trata de tentar educar, mas de permitir que as pulsões possam ter lugar. 
Na clínica com crianças sentimos inclusive na pele, a força das pulsões, quando uma criança que não dá conta da invasão pulsional sofrida e atua de forma violenta em relação ao analista. A nós cabe a tentativa de conter de forma simbólica, isto é, de funcionarmos como continente das pulsões desordenadas, de emprestar palavras para elaborar, ligar a energia livre. E dessa forma, ajudá-la a trabalhar psiquicamente, auxiliando na construção da neurose infantil. “A criança cria, ao mesmo tempo, a história de sua neurose e a constituição de sua subjetividade” (Rosenberg, 2002, p.51).
Como dito anteriormente, outra importante especificidade da clínica com crianças é a necessidade de manejo e de pensar a relação entre os pais e a criança, isto é, o lugar ocupado pela criança na estrutura familiar, no discurso e desejo dos pais. Levando em conta o desamparo infantil, a criança necessita do suporte do adulto, e é a partir do discurso deste que serve como referência para construir seu lugar subjetivo no mundo e na cultura.
Vale ressaltar que a criança muitas vezes é entendida como ser incompleto, pensando de um modo desenvolvimentista, modo no qual o adulto seria o final de uma linha de desenvolvimento. No entanto, não consideramos dessa forma linear. Podemos dizer que a criança e a infância têm a marca da temporalidade cronológica, ou seja, a criança tem delimitação temporal, a infância é finita. 
Em relação à noção de “infância”, Zornig (2008), afirma ser “atravessada pela ideia de uma temporalidade cronológica, sucessiva, linear, em que a história do sujeito é vista como uma progressão que se inicia com o mais simples (criança) para chegar ao mais complexo (adulto)”.  
Enquanto a noção de infantil, para a autora, está referida a marcas e inscrições das relações primárias inconscientesrecalcadas, estas formam a base da neurose infantil, então, noção fundadora. O desamparo infantil é esquecido. De acordo com Tanis, “a questão do registro das experiências infantis torna-se constituinte do inconsciente e fonte para o recalcamento”. (Tanis, 1995, p.47).
No entanto, o que está recalcado não estáultrapassado e dá notícias na clínica pelas atuações, pela compulsão à repetição. A neurose infantil pode ser entendida como uma interpretação frente aos enigmas suscitados na relação com o outro. Por exemplo, no caso Hans, temos alguns exemplos das teorias infantis criadas pelo menino frente aos enigmas em relação à sexualidade, ao nascimento das crianças, ao papel do pai na geração de um filho.  
As teorias sexuais infantis também podem ter como origem enigmas introduzidos pelos adultos, e possibilitama busca por compreender algo ainda intangível para a criança. Pensar sobre o enigma da sexualidade introduzido pelo adulto e de que forma a criança tenta dar conta disso, em outras palavras, o que a criança constrói para responder ao enigmático da relação com o outro. Como exemplo, é possível citar o caso de uma menina de seisanos que atendo. S. apresentou numa sessão, a expressão de sua curiosidade em relação à sexualidade e ao nascimento. Quando S. faz as cobrinhas de massinha e no desenho, cobras que comem jabuticaba, que a menina tanto gosta (assim como seu pai), e cobras que também fazem “cocozinho”, o que diz sorrindo. As cobras, em outro momento, são cobras mãe e pai, desenhadas junto com um sinal de +, e abaixo escreve seu nome. Estamos diante de uma tentativa de representar, elaborar algo do sexual de forma singular e dentro das possibilidades da menina. Além de pensar seu lugar na estrutura familiar.
A clínica com crianças traz ainda, importantes contribuições para pensar o que é trazido à análise, tanto por adultos como por crianças, e, ainda pelos adultos que trazem a criança, auxiliando a compreensão clínica de forma geral, pois o infantil é central para o sujeito. Ao longo da infância a neurose infantil é constituída, vale ressaltar que Freud afirma que toda neurose tem como ponto de partida uma angústia infantil. A neurose infantil é o que estrutura o sujeito e esta é trazida à análise. Longe de tentar buscar o momento cronológico de constituição da neurose, do sintoma, mas sim buscar uma construção da fundação do sintoma. Dessa forma, o papel da análise não é o de reconstruir a criança real, mas sim a infância mítica de uma criança real. (Zornig, 2008, p.12). Na clínica com crianças devemos permitir também que sejam realizadas construções que não foram possíveis anteriormente.
Faz-se necessário discutir a importância da escuta aos pais, além do acolhimento da angústia suscitada por alguma falha, tocando e ferindo seu narcisismo,pensando sobre o enigmático que se introduz que os pais não dão conta, levando o filho ao tratamento. E ainda, na clínica estão presentes a criança, os pais e o infantil de cada um deles. O trabalho, com seus impasses, acontece no manejo dos conflitos e demandas. Para tal, utilizarei ideias contidas no artigo “A constituição do sujeito e o lugar dos pais na análise de crianças” (Rosenberg, 2002) para discutir os motivos pelos quais se torna essencial aescuta dos pais na análise de crianças. Levando em conta que com os filhos as questões infantis são revisitadas pelos pais, isto é, seu Édipo, sexualidade infantil entre outros.
Segundo, Rosenberg (2002), “as crianças costumam fazer sintomas naqueles lugares que se tornam insuportáveis para seus pais”. Entendemos o sintoma como uma saída, uma substituição a um desejo recalcado; é uma solução de compromisso frente a um conflito entre um desejo inconsciente que se esforça para ser satisfeito e o insuportável do Eu para tolerar sua realização.  De acordo com Zornig (2008), o sintoma pode ser entendido como uma resposta singular a uma demanda inconsciente dos pais. E ainda, podemos entender o sintoma como uma forma de se fazer ouvir, pois, “as crianças, em muitos momentos, reatualizam conflitos enterrados, não resolvidos dos pais” (Rosenberg). O sintoma da criança pode ainda, ser utilizado inconscientemente pelos pais para pedir análise, ou por outro lado, pode aparecer no lugar de algo que foi deixado de lado na relação inconsciente com seus próprios pais. O conflito vivenciado pela criança tem relação com o medo da perda de amor dos pais e o desejo de satisfação pulsional que não é possível. Levando muitas vezes a uma repressão para satisfazer o outro, os pais. E é a partir de um conflito, que o sintoma surge, sintoma esse que diz respeito a uma produção singular da criança.
Rosenberg discute a formação da subjetividade da criança e a confusão do desejo do infans com o de seus pais. Um dos impasses dessa clínica, que cabe a nós estar atentos, para o que é desejo dos pais e o que é desejo da criança. Vale lembrar que tal delimitação muitas vezes não é clara e exige escuta atenta. A chegada ao tratamento é marcada por alguém falando pela ou da criança e vale lembrar que seu percurso subjetivo também se inicia pela filiação. Como dito anteriormente, a análise de crianças está calcada pelos mesmos pressupostos teóricos da análise de adultos, ou seja, cabe sustentar a transferência, ou múltiplas transferências, acompanhar o aparecimento dessa subjetividade.
Dessa forma, Rosenberg nos mostra a necessidade de escuta aos pais da realidade ocorre devido ao peso que o intersubjetivo tem na formação do sintoma ou na estruturação das neuroses. E é a partir da escuta do inconsciente dos pais, que permite uma mudança, uma re-simbolização do lugar que esse filho e esse sintoma ocupam na história dos pais e da criança. Paralelamente ao trabalho de construção em análise com a criança é necessário a escuta e a mudança, o deslizamento na fantasia dos pais, permitindo que a criança saia de certo lugar que lhe foi destinado. Pois é o inconsciente dos pais que lhe empresta pedaços de fantasmas, empresta-lhes palavras e permite estruturar representações para formar o próprio imaginário. Ou seja, a importância do desejo e da fantasia dos pais é essencial para a constituição do sujeito, a intersubjetividade deixa marcas. E a criança se utiliza dessas marcas para criar algo próprio.
A autora recorre a Laplanche e ao conceito de metábola, o qual

propõe entrecruzamentos no processo de constituição do aparelho psíquico que se fazem entre fatores que advêm do intrapsíquico e fatores que advêm do campo do O-outro. O inconsciente é o resultado de um estranho metabolismo que implica a decomposição e recomposição. O desejo da mãe incide no campo da criança da mesma maneira que um raio de luz incide na água: ao incidir nesse meio novo, sofre uma refração e se modifica. (Rosenberg, 2002 p.65)
Mais do que apontar a criança enquanto sintoma dos pais, é possível pensar o que o sujeito faz, constrói a partir do discurso parental. O papel do adulto não pode ser considerando somente no nível fantasmático, mas também na realidade. Dessa forma, podemos escutar qual lugar é dado a criança no discurso, na fantasia dos pais e o que a criança faz a partir do que entende, de que forma introjetae o que lugar produz para si. Longe de se tratar de um lugar determinado pelo discurso parental, entendemos como uma construção a partir de alguns elementos do que vem dos pais e não uma continuidade do inconsciente dos pais. Não se trata de mera internalização do discurso parental. E, se entendemos a criança como sujeito, é preciso implicá-la em seu sintoma, em sua posição escolhida de forma forçada, mas uma escolha. E fazê-la trabalhar transferencialmente, da mesma forma que o adulto pela repetição e elaboração, no sentido de ser sujeito de sua história. O trabalho com os pais se dá com o objetivo de dar continuidade à análise da criança.
A função do enigma na clínica pode ser pensada como condição de possibilidade de criação de algo novo e próprio, isto é, de interpretação, tanto no que diz respeito à relação entre os pais e a criança, permitindo formular suas teorias próprias e sintomas, a neurose infantil. E ao lado do analista, colocá-lo diante de dúvidas que possibilitem a construção.




Natalia Silva Romanini



Referências Bibliográficas:
Tanis, Bernardo, Memória e Temporalidade – Sobre o infantil em psicanálise, São Paulo: Casa do Psicólogo, 1995.
Rosenberg, Ana Maria SigalA constituição do sujeito e o lugar dos pais na análise de criançasin O lugar dos pais na Psicanálise de Crianças, São Paulo: Escuta, 2ªed, 2002.
Zornig, Silvia Maria Abu-Jamra, A Criança e o Infantil em Psicanálise, São Paulo: Escuta, 2008.

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